Artigo · 3 de agosto de 2020

Conservacionismos em tempos de pandemia

A partir do incêndio de Carcaixent e da pandemia, Ferran Dalmau reflete sobre a necessidade de investir na prevenção da crise ambiental e dos incêndios.

Por Ferran Dalmau – Rovira. Diretor da Medi XXI GSA

Engenheiro Florestal. Técnico de Emergência e Proteção Civil.

Faz agora 4 anos, a 16 de junho de 2016, a localidade valenciana de Carcaixent sofreu um Grande Incêndio Florestal (os que queimam mais de 500 hectares) que afetou 2210 hectares. Oitenta por cento do seu património natural desapareceu em poucas horas. Passados 4 anos, surgem dúvidas sobre se aprendemos alguma coisa com aquela crise ou não. E a verdade é que, nestes 4 anos, do ponto de vista da prevenção de outro fogo desta escala a nível local, pouco se fez… aliás, se olharmos para os dados estatísticos desta localidade, nos próximos 10 anos voltará a arder. É que, infelizmente, por vezes nem com as piores crises se aprendem lições. Infelizmente, o incêndio de Carcaixent é apenas uma gota de água num imenso oceano.

Para teres uma ideia, na Europa ardem em média cerca de 500 000 hectares por ano, dos quais 375 000 no Mediterrâneo. Em 2017 arderam 890 000 hectares, o pior ano desde 1985 no que toca a incêndios florestais. Estes episódios de Grandes Incêndios Florestais, muitas vezes simultâneos, que afetam grandes áreas em momentos de meteorologia extrema, implicam a destruição de habitats e paisagens ao arderem com altíssima intensidade (muita lenha acumulada é igual a muita energia libertada), emissões de CO2 para a atmosfera, impactos nos balanços hidrológicos e na qualidade da água ou a perda irreparável de solo fértil… se isto acontece de forma recorrente, e em muitos lugares é assim, constitui uma autêntica pandemia ambiental, que não é mais do que a antecâmara da desertificação (com todas as suas consequências).

Quanto a vítimas mortais diretas, entre 2000 e 2016 a Europa registou 488 mortes causadas por incêndios. Entre 2017 e 2018 registaram-se 225 mortes diretas só em Portugal, na Grécia e em Espanha. À escala mundial, o número de mortes por incêndios aumentou 276 % se tivermos em conta os Grandes Incêndios Florestais dos Estados Unidos, da Amazónia, da Austrália, da Sibéria, de Portugal, da Grécia… Pensa por um momento na famosa curva de propagação e de vítimas da COVID-19. O que fizemos quando o número de mortes aumentava a um ritmo vertiginoso? Porque é que com outras crises é diferente? Porque é preciso ter em conta que as vítimas indiretas (humanas), provocadas por emissões poluentes, contaminação do solo ou da água… são dificilmente quantificáveis, já que não existem dados fiáveis. Mas, além disso, se nos afastarmos por um momento da visão antropocêntrica das coisas, há também mais vítimas (animais, plantas, ecossistemas inteiros…). A crise sanitária foi brutal. Gerou um impacto socioeconómico sem precedentes na nossa geração e será recordada como um marco histórico. Um pequeno vírus microscópico pôs em xeque todo um sistema que, de repente, descobriu que é vulnerável e entrou em pânico. O tempo dirá se as medidas que agora começam a ser aplicadas funcionam ou não. O problema é que há outra pandemia em curso, mais brutal, mais grave e mais profunda, mas dessa parece que ninguém se lembra. Surpreende como se adaptaram protocolos, se criaram «espaços seguros», se articularam medidas económicas e se alteraram normas a uma velocidade estonteante (se tivermos em conta os prazos a que a «burrocracia» nos habituou a nós, pessoas comuns) e, no entanto, para enfrentar a crise climática, tudo são prorrogações, prazos longos e grandes rodeios.

Alguns dados de contexto sobre os incêndios florestais

As perdas económicas causadas pelos incêndios florestais na Europa ascendem a 3000 milhões de euros por ano. Todos os anos. E estima-se que, nos próximos anos, esse valor, só na Grécia, em Espanha, França, Itália e Portugal, possa chegar aos 5000 milhões de euros por ano. Todos os anos. O que aconteceria se, em vez de gastar a reparar danos, investíssemos em preveni-los? Imaginas pôr esses montantes anuais em trabalhos de prevenção de incêndios florestais e noutras ações que melhorem os serviços dos ecossistemas do território agroflorestal e das zonas periurbanas? Seria como ter máscaras e ventiladores antes de chegar um vírus maldito a criar um problema… seria como antecipar os problemas antes de surgirem… Também não é fácil obter dados fiáveis sobre o impacto dos incêndios florestais no turismo. A perda de paisagem e de recursos implica condicionantes diretos, por exemplo, para as explorações de turismo rural, ou indiretos, como a perda de reservas hídricas. Nessa prevenção, a economia rural assume especial relevância. Segundo dados do Governo de Espanha, entre 1970 e 2018 houve em todo o país mais de 628 000 incêndios, que afetaram mais de 8 milhões de hectares. Apesar disso, importa sublinhar que Espanha é o segundo país mais arborizado da União Europeia, a seguir à Suécia. 55,2 % da superfície total do país (27,9 milhões de hectares) são terrenos florestais, dos quais mais de 66 % são floresta. E isto apesar dos incêndios florestais.

Cartografia europeia de incêndios florestais para o período 2008 – 2019. A amarelo, as zonas ardidas, onde se vê quais são as regiões europeias mais castigadas pelo fogo. Fonte: EFFIS
(European Forest Fire Information System)

Imaginas o que poderia acontecer se investíssemos parte da dívida que vai ser gerada para sair da crise sanitária na prevenção da crise ambiental? Imaginas que Espanha começasse a aproveitar esses 55,2 % do seu território de forma ordenada e sustentável, criando postos de trabalho que travassem o êxodo rural e, de caminho, atenuassem os efeitos da Emergência Climática? Muita gente desconhece que Espanha é o terceiro país europeu em recursos absolutos de biomassa florestal (a seguir à Suécia e à Finlândia). Pelo contrário, é dos países que menos aproveitam os recursos florestais e agropecuários (ambos renováveis) para produzir energia, enquanto importamos dezenas de milhares de milhões de euros por ano em combustíveis fósseis… Em 2016, a biomassa representou apenas 2,1 % do total da produção nacional de energia elétrica. Já os combustíveis fósseis representam 35 % do mix elétrico. Dois dados que farão qualquer pessoa compreender os incêndios atuais: segundo a Sociedad Española de Ciencias Forestales, Espanha passou de cerca de 456,7 milhões de m3 de volume de madeira nas suas florestas em 1975 para 927,8 milhões em 2010. A «energia acumulada» nos espaços florestais duplicou.

Evolução da superfície cultivada em Espanha (2002 – 2017). Fonte: Dalmau Rovira, F., 2019, a partir de dados do Ministério da Agricultura

Calcula-se que se acumulam 60,4 milhões de toneladas por ano e que só se extraem 18,4 milhões. Como não a aproveitamos nem a gerimos, acaba por arder. Parece-te lógico? Talvez não seja muito. E isto sem contar com a biomassa agrícola… que é ainda mais importante. Atualmente, a biomassa gera um balanço socioeconómico e ambiental positivo, avaliado em 1323 milhões de euros, como diferença entre a contribuição para os cofres públicos e a poupança ambiental (emissões de CO2 e prevenção de incêndios) e a remuneração da atividade. Gera também um impacto positivo em termos de emprego. Só nos trabalhos de recolha, tratamento e distribuição de combustível poderiam criar-se 10 000 postos de trabalho, e quase 15 000 empregos mais na operação e manutenção das caldeiras de biomassa. Além disso, evitar-se-ia a importação de mais de 20 milhões de barris de petróleo e a emissão para a atmosfera de 8,7 milhões de toneladas de CO2 por ano. A biomassa florestal poderia criar mais de 594 000 postos de trabalho nos próximos anos. Imagina se lhe somarmos a agrícola. E isto é só um exemplo do que poderíamos fazer, de forma renovável e, além disso, sustentável. Mas não é assim tão simples. Infelizmente, temos algumas quimeras sociais para resolver antes de metermos mãos à obra.

Gastamos muito em extinção; e se investíssemos mais em prevenção?

Uma das questões prévias que é preciso abordar é como e quando se utilizam os recursos públicos em matéria de incêndios. Por não se investir em gestão florestal e em prevenção antes dos incêndios, gasta-se mais em extinção durante os mesmos e em recuperação e reparação de danos depois. Em 2017, Espanha utilizou 262 meios aéreos no combate aos incêndios florestais para pouco mais de 27 milhões de hectares de solo florestal. A título de comparação, os Estados Unidos têm 331 milhões de hectares de solo florestal e, em cada campanha, utilizam entre 900 e 1000 meios aéreos. Fazendo uma simples divisão, em Espanha o rácio de meios aéreos por cada milhão de hectares é de aproximadamente 9,7 aeronaves por hectare, enquanto nos Estados Unidos é de 2,75 aeronaves por cada milhão de hectares… E isto apesar de ser um facto que um maior esforço de extinção não implica necessariamente melhores resultados nos episódios de meteorologia extrema. Espanha gasta por ano entre 300 e 400 milhões de euros na extinção de incêndios (sem contar o dinheiro gasto em reparação de danos, recuperação, trabalhos urgentes, indemnizações…), mas investe entre 100 e 200 milhões de euros em prevenção. O que aconteceria se se equiparassem os recursos destinados à prevenção? Talvez fizessem falta menos recursos de extinção? Poupar-se-iam danos ambientais, sociais e económicos? Seria mais sustentável? Cada um que julgue a resposta a estas perguntas, mas parece evidente que não é eficiente nem eficaz, em termos sociais, ambientais ou económicos, continuar a apostar sobretudo na extinção de incêndios.

Incêndio florestal no Parque Nacional de Garajonay em agosto de 2012. Um espaço protegido não o está pelo simples facto de se aprovar uma figura administrativa de «conservação». Sem gestão efetiva do território, não há proteção. Fonte: Parque Nacional de Garajonay

Pode «conservar-se» algo que é dinâmico e que está a mudar?

As Alterações Climáticas implicam que as coisas vão mudar. «Mudar», segundo o dicionário, define-se como «deixar uma coisa ou situação para tomar outra». Ou seja, as Alterações Climáticas vão mudar o cenário. A precipitação, a temperatura, os regimes de ventos, a humidade ambiente, as secas… e estas mudanças implicarão, logicamente, mudanças na vegetação que o território acolhe. O dicionário define «conservar» como «manter ou cuidar da permanência ou integridade de algo ou de alguém». E esta mesma descrição, aplicada ao termo «conservacionismo» (entendido em termos ecologistas, e não de ecologia), sugere uma pergunta: é possível conservar uma floresta, um espaço ou um ecossistema no quadro de uma «alteração» climática? A que custo? Faz sentido tentar «conservar» algo que vai mudar, se não mesmo desaparecer, por uma força de mudança maior do que o poderio antropocêntrico (o poderio natural, portanto)? E se, em vez de centrarmos os esforços em «conservar», os centrássemos em «adaptar» os nossos espaços agroflorestais a esta «nova realidade» que as alterações climáticas implicam? Mais uma vez, recorrendo ao dicionário, adaptar pode entender-se como «acomodar, ajustar algo a outra coisa»… E se, em vez de «conservar», adaptássemos, ajustássemos ou acomodássemos as políticas de gestão florestal e de biodiversidade ao cenário que aí vem? E se assumíssemos que não podemos conservar algo num meio em mudança? E se entendêssemos que talvez só possamos aspirar a ajudar nesse processo de adaptação? A imagem idealizada e imaculada que alguns setores do conservacionismo têm do território faz com que a sua sensibilidade ambiental (fantástica e maravilhosa) se traduza numa gestão estática de algo dinâmico. Algo que, por definição, parece impossível. Talvez, e convém insistir no talvez, porque não há uma única forma de abordar estas questões, fosse interessante aprofundar a pergunta sobre se é sustentável tentar «conservar» a todo o custo ou se, pelo contrário, é necessário trabalhar desde já, de forma proativa, na adaptação à realidade que aí vem. Outra proposta passaria por, quando um projeto fosse proposto por uma Câmara Municipal e financiado pela UE (tendo passado assim um duplo filtro), simplificar substancialmente os procedimentos para poder iniciar a sua execução.

GUARDIAN, uma ferramenta de adaptação à mudança (climática).

A maior parte da informação de que dispomos neste momento augura para o Mediterrâneo um futuro mais seco e mais quente, com secas mais recorrentes e intensas. Nesse cenário, toda a vegetação que fique fora do seu intervalo climático (a que precise de mais água, de temperaturas mais baixas ou de melhor solo, por exemplo) irá enfraquecendo e adoecendo (por pragas florestais que atuarão como uma pandemia, por exemplo). Com povoamentos enfraquecidos e em cenários de seca persistente, o fogo, no seu papel de gestor do ecossistema, acabará o trabalho, fazendo desaparecer as espécies que já não «caibam» num determinado território. Entende, tu que lês estas palavras, que, mesmo que a causalidade humana se reduzisse a zero, o que é bastante improvável, infelizmente continuaria a haver incêndios como o de Llutxent em 2018, provocado por um raio e com resultados catastróficos. Afetou mais de 200 habitações. E entende também que a única coisa que está nas mãos de quem gere o território é o estado do cenário em que a batalha será travada. Nem o dia, nem a hora, nem o lugar, nem as condições meteorológicas. Simplesmente, o estado em que estará o cenário.

Em Carcaixent, em 2006, 10 anos antes do último Grande Incêndio Florestal, uma pequena Comunidade de Proprietários, com a ajuda da Generalitat Valenciana e da Câmara Municipal, lançou um projeto de prevenção. As 140 propriedades daquele núcleo e as Administrações Públicas investiram no planeamento e na execução de medidas de autoproteção. Receberam formação e dotaram o núcleo de um sistema de defesa contra incêndios florestais. Houve quem considerasse caríssimo o investimento de 921,76 euros por propriedade (contando com as ajudas públicas e o investimento privado)… mas chegou 2016. E aquele investimento pagou-se de uma só vez. Além disso, se se realizarem trabalhos preventivos nas zonas urbanizadas, são precisos menos meios de extinção para as defender e podem salvar-se mais hectares florestais… se não se investir, a maior parte dos meios é destinada a proteger casas. Neste sentido, o GUARDIAN, financiado pela Comissão Europeia para atenuar os efeitos das Alterações Climáticas, é a versão corrigida e aumentada daquela iniciativa original que arrancou há agora 14 anos na comarca da Ribera Alta del Xúquer. A ideia inovadora é, ao mesmo tempo, simples: da água que as zonas de risco da Vallesa de Mandor, Masía Traver, València la Vella, Els Pous, La Canyada, etc., enviam para a EDAR Camp de Túria II (estação de tratamento de águas residuais), uma parte ínfima vai ser regenerada e utilizada como recurso na defesa contra incêndios florestais, aplicando regas prescritas para criar corta-fogos verdes. Na contribuição de água regenerada de alta qualidade para o meio natural, para atenuar as secas que possam vir e reduzir a inflamabilidade da vegetação em zonas estratégicas. Para combater os incêndios florestais, caso ocorram. O GUARDIAN é economia circular valenciana aplicada, e demonstra aquilo de que «parece sempre impossível, até ser feito». A participação das Universidades Públicas, com a sua experiência e conhecimento em silvicultura para maximizar o aproveitamento da água e na análise dos fluxos económicos, da CETAQUA como centro tecnológico, da HIDRAQUA como especialista no ciclo integral da água, e das Câmaras Municipais de Riba-roja e Paterna, como gestoras e beneficiárias da iniciativa, fizeram deste projeto uma magnífica ferramenta de adaptação à mudança que estamos a viver. Depois de um ano e meio de documentação técnica, licenças, procedimentos e papelada, em setembro começará o trabalho no terreno, centrado, logicamente, em adaptar estas zonas com base no que se aprendeu em 2016 em Carcaixent.

Corta-fogo verde em Carcaixent que recebeu o impacto do incêndio e ajudou a contê-lo, permitindo aos Serviços de Emergência defender a zona, 2016. Fonte: Medi XXI GSA.

A última aceção do dicionário para a palavra «adaptar» descreve-a como um conceito da biologia, «dito de um ser vivo: acomodar-se às condições do seu meio». Olha, a mim não me agrada, porque chegámos aqui pela nossa inconsciência enquanto sociedade e por uma série de decisões que temos de rever, mas o facto é que o meio vai mudar. E, perante esse facto, temos duas opções. Adaptarmo-nos ou não. E cada opção acarreta consequências, por isso a pergunta é simples:

O que preferes? Adaptar-te ou…?

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Uma solução replicável

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