Artigo · 18 de fevereiro de 2022

Gestão Integrada de Incêndios na Interface Urbano-Florestal: o caso de estudo dos municípios de Riba-roja de Túria e Paterna

Artigo técnico sobre o GUARDIAN como caso de gestão integrada de incêndios: corta-fogos verdes, rega com água regenerada, ecossistemas e participação.

PASTOR, E.1, DALMAU, F.2, ANGUIANO J.3, RUIZ M.4, DEL CAMPO. A.5, HERNÁNDEZ, F.6, GALISTEO, A.7, ADOBES, V.8

1 Centre d’Estudis del Risc Tecnològic, Universitat Politècnica de Catalunya – BarcelonaTech

2 Medi XXI Gabinet de Solucions Ambientals, S.L.

3 HIDRAQUA, Gestión Integral de Aguas de Levante, S.A.

4 Cetaqua, Water Technology Centre

5 Universitat Politècnica de València

6 Grupo de Economia da Água. Instituto de Desenvolvimento Local. Universidad de Valencia

7 Câmara Municipal de Paterna

8 Câmara Municipal de Riba-roja de Túria

1. Introdução

A Europa encontra-se num novo contexto de incêndios florestais, sobretudo devido às alterações climáticas, com um risco crescente de ocorrência de fenómenos extremos com consequências fatais na interface urbano-florestal. A Comissão Europeia prevê que as áreas com risco de incêndio florestal aumentem 200 % na Europa até ao final do século XXI (European Comission, 2018). Além disso, o crescente desenvolvimento de áreas urbanas na proximidade de zonas florestais, aliado à falta de consciência do risco por parte da população, está a provocar um aumento da exposição e da vulnerabilidade das comunidades situadas em zonas de interface (Wigtil et al., 2016), o que acarreta enormes desafios de gestão de incêndios e de proteção civil (Pastor et al. 2020).

Nos últimos cinco anos, a Europa mediterrânica sofreu incêndios graves com consequências catastróficas, tanto no plano ambiental como no plano social e económico. Entre os incêndios florestais mais devastadores deste período, destacam-se os incêndios na ilha da Madeira (2016), em que perderam a vida 3 pessoas e as chamas chegaram a alastrar ao centro histórico da capital, o Funchal; os incêndios na Comunidade Valenciana (2016-2018), com particular relevo para os incêndios de Benitatxell e Llutxent, que danificaram cerca de 200 habitações; o incêndio de Rognac (França, 2016), que ameaçou a interface urbano-florestal e infraestruturas críticas (e.g. aeroporto, complexo petroquímico) de Marselha, uma das cidades mais populosas de França; o incêndio de Pedrógão Grande (2017), o mais mortífero da história de Portugal, com 66 mortos e mais de 200 feridos; e os incêndios de Mati (Grécia, 2018), que mataram 102 pessoas e destruíram por completo um milhar de habitações (Vacca et al, 2020). O impacto global causado pelos incêndios florestais nos últimos anos foi elevadíssimo e ainda não existem números globais. Como exemplo significativo, refira-se o impacto correspondente ao ano de 2017, com 1,2 milhões de hectares ardidos, 127 mortos e 10 000 milhões de euros de perdas económicas em todo o continente europeu (San-Miguel-Ayanz et al, 2018).

Este novo contexto exige uma gestão integrada de incêndios que considere em conjunto os aspetos socioeconómicos, ambientais e operacionais em todas as fases da emergência: prevenção, preparação, resposta, impacto e recuperação. A chamada Gestão Integrada do Fogo (e.g. Myers, 2006, Sande Silva et al, 2010) (Integrated Fire Management – IFM – em inglês) proporciona este quadro holístico de trabalho, indo além da abordagem clássica que privilegia o combate aos incêndios em detrimento de outras estratégias. O paradigma de trabalho da IFM integra, entre outras ações, i) o desenvolvimento de estratégias de gestão florestal que incluam a prevenção de incêndios, bem como a conservação dos recursos naturais, dos serviços dos ecossistemas e da biodiversidade, tendo em conta políticas climáticas e energéticas sustentáveis; ii) o aumento da consciência do risco e da preparação da população face aos incêndios; e iii) a conceção e a implementação conjuntas de ações com todas as partes interessadas (administrações, corpos de bombeiros, agências de proteção civil, comunidades, etc.)

O projeto GUARDIAN é um exemplo muito relevante e inovador de gestão integrada de incêndios aplicada à escala municipal. Concretamente, o seu âmbito de ação corresponde aos municípios de Riba-roja de Túria e Paterna (Comunidade Valenciana) e o seu objetivo final é aumentar a resiliência ao fogo de ambos os municípios, aplicando os princípios básicos de uma gestão holística, sustentável e assente na coparticipação de todos os agentes envolvidos, nos quais se baseia a IFM.

Na secção 2 apresentam-se as bases do projeto GUARDIAN, com especial destaque para as soluções técnicas mais inovadoras que compõem o programa de trabalho. Em seguida, na secção 3, discutem-se os desafios de implementação dessas soluções, bem como a viabilidade e a escalabilidade do GUARDIAN para outros municípios com risco de incêndios de interface. Por último, na secção 4 reúnem-se, a título de conclusão, as lições aprendidas até à data.

2. O projeto GUARDIAN: um exemplo de Gestão Integrada de Incêndios na Comunidade Valenciana

A zona periurbana da cidade de Valência é composta fundamentalmente por um conjunto de pequenas cidades cujo contacto com o monte é, em muitas delas, significativo. Este contacto implica um perigo considerável de incêndios de interface, devido, entre outras causas, ao abandono da agricultura e a uma gestão florestal insuficiente. O perigo traduz-se num risco incomportável no verão, com um aumento da população na zona, condições meteorológicas propícias ao desenvolvimento de incêndios florestais e uma capacidade muito limitada de autoproteção e de combate ao fogo. Os municípios de Riba-roja de Túria e Paterna são um caso paradigmático desta situação (Figura 1). As suas áreas urbanas partilham a zona silvestre protegida de «La Vallesa», que faz parte do Parc Natural del Túria. Só entre 2000 e 2016, esta zona sofreu 40 incêndios florestais, que se revelam cada vez mais destrutivos devido ao rápido desenvolvimento urbano da zona. Como em todos os incêndios de interface, o impacto do fogo em Riba-roja de Túria e Paterna pode eventualmente afetar não só vidas humanas e habitações, mas também infraestruturas críticas (linhas elétricas), causar danos ambientais (e.g. qualidade do ar, erosão, perda de biodiversidade) e ter igualmente um efeito negativo a nível económico (e.g. impacto no setor do turismo).

Figura 1. Zona de implementação do projeto GUARDIAN

O projeto GUARDIAN propõe uma estratégia inovadora de IFM para aumentar a resiliência ao fogo nas comunidades de Riba-roja de Túria e Paterna. O GUARDIAN assenta num modelo de gestão sustentável do meio natural para garantir a proteção da população e dos seus bens face aos incêndios florestais, contribuindo para a preservação do Parc Natural del Túria. Graças ao apoio do programa de Ações Urbanas Inovadoras da União Europeia (Urban Innovative Actions) e ao trabalho coordenado de todos os seus parceiros (as câmaras municipais de Riba-roja e Paterna, a consultora de engenharia ambiental MEDI XXI, a empresa local de gestão de águas HIDRAQUA, o centro tecnológico da água CETAQUA e os centros de investigação florestal da Universitat Politècnica de València e de economia da água da Universitat de València), o GUARDIAN implementa uma estratégia combinada assente na utilização de água regenerada para a prevenção e a proteção contra incêndios, com padrões de rega automáticos na interface, em trabalhos silvícolas e de melhoria da qualidade ambiental e na sensibilização para o risco e educação da população (Figura 2).

Figura 2. Desenho conceptual do projeto GUARDIAN (adaptado de Dalmau, 2020)

O êxito do projeto reside i) em assegurar um elevado desempenho das infraestruturas preventivas concebidas (os chamados corta-fogos verdes); ii) em implementar um modelo de economia circular do ciclo da água, utilizando água regenerada para rega; iii) em garantir uma abordagem participativa e de implementação conjunta com todos os atores envolvidos, contando sobretudo com a população residente na interface; e iv) em proporcionar uma melhoria da qualidade dos ecossistemas do Parc Natural del Túria. Descrevem-se em seguida os aspetos técnicos mais relevantes relativos a estas quatro questões.

2.1. Conceção e implementação de corta-fogos verdes

O eixo principal em torno do qual gira a estratégia integrada de gestão de incêndios do GUARDIAN é a construção de corta-fogos verdes, uma infraestrutura de prevenção e proteção contra o fogo concebida para ser implementada em determinados troços do perímetro das zonas de interface dos municípios de Riba-roja de Túria e Paterna. Esta infraestrutura é uma solução inovadora de silvicultura eco-hidrológica sustentável (del Campo et al., 2017), na qual se combinam tratamentos silvícolas com aportes hídricos artificiais, realizados através de rega prescrita com água regenerada programada de forma automática (Figura 3). Embora seja uma técnica nova à escala europeia, existem precedentes de corta-fogos verdes (neste caso sem irrigação artificial) noutras regiões do mundo com problemas de incêndios florestais (e.g. China e Estados Unidos), cujos desenhos e lições aprendidas (e.g. St. John e Ogle, 2009; Cui et al, 2019, Wang 2017) servem de base à conceção desta infraestrutura no âmbito do GUARDIAN.

Figura 3. Aproximação ao perfil pretendido num corta-fogo verde (Fonte: Dalmau, 2020).

As intervenções executadas no GUARDIAN para a implementação de corta-fogos verdes — concebidos no projeto como faixas perimetrais de defesa com vegetação resiliente ao fogo, com 50-60 m de largura, humedecidas artificialmente com rega automatizada através de canhões de água — abrangem uma sequência de tarefas multidisciplinares. Em primeiro lugar, incluem estratégias clássicas de silvicultura preventiva contra incêndios (i.e. alteração da quantidade e da continuidade do combustível dentro da faixa através de desbaste, roça de mato e poda), combinadas com a introdução de espécies de elevada resiliência ao fogo (e.g. espécies com grande capacidade de armazenamento de humidade nas folhas e caules, com baixa carga de combustível e baixos teores de óleos essenciais, com pouca tendência para acumular vegetação morta em pé, etc.) e com outros aspetos mais inovadores, como a introdução do fator vento no desenho e na orientação das faixas. Em seguida, implicam tarefas de engenharia paisagística, engenharia hidráulica e engenharia civil para a conceção, o dimensionamento e a implementação da rede de aspersores de água. Por último, há que referir as intervenções necessárias para configurar e programar uma rede de sensores (composta por equipamentos de deteção de incêndios, sensores agronómicos e sensores de medição meteorológica e de parâmetros ambientais) para o controlo do sistema automático de aspersão de água, que deve responder às necessidades de rega da faixa corta-fogo. Neste sentido, estabelecem-se diferentes padrões de rega em função do seu objetivo, seja fornecer água de combate (durante o incêndio), água preventiva (não metabolizada, aplicada nos dias de risco máximo de incêndio florestal) ou água estrutural (metabolizada, aplicada para reduzir a disponibilidade do combustível a curto e médio prazo).

Definir quando é pertinente iniciar a rega, bem como durante quanto tempo é necessário regar (tendo em conta as condições ambientais e o estado hídrico da vegetação), é uma tarefa científica que representa um avanço significativo em relação ao estado da arte. Para esse fim, realizou-se um trabalho de investigação experimental no terreno para quantificar os processos eco-hidrológicos e energéticos entre a atmosfera, as árvores e o solo numa parcela representativa do monte de «La Vallesa». A extrapolação dos resultados à escala do monte baseia-se na calibração de modelos ambientais (seca, risco de incêndio, atmosfera), ecofisiológicos (stress hídrico/vigor da vegetação, estrutura, modelos de combustível) e hidrológicos (humidade do solo, transpiração, escoamento), ajustados com base nos dados obtidos no terreno e em diferentes parâmetros ecofisiológicos indicadores da resposta aos tratamentos de rega sob diferentes condições ambientais (tanto meteorológicas como edáficas).

2.2. Infraestrutura hidráulica para rega preventiva e de combate

A água utilizada no GUARDIAN resulta da adoção de um modelo de gestão sustentável do ciclo da água nos municípios de Riba-roja de Túria e Paterna, aplicando conceitos de economia circular. O Livro Branco da Água e da Economia Circular (Tahir et al., 2018) reúne os fundamentos de como articular a gestão da água e as práticas de economia circular num contexto de alterações climáticas e de escassez generalizada de água. Refere, entre outras ações, a revalorização e reutilização de efluentes residuais através de tratamentos de regeneração como alternativa sustentável à utilização de recursos hídricos convencionais. Seguindo estas recomendações, o GUARDIAN desenvolveu uma solução técnica para revalorizar a água à saída da estação de tratamento de águas residuais (ETAR) «Camp de Túria II» (EDAR Camp de Túria II), para a sua utilização como água de rega dos corta-fogos verdes e para a recuperação do reservatório de «La Vallesa». O tratamento tem como objetivo a eliminação dos chamados microcontaminantes orgânicos (OMP, na sigla em inglês). Estas moléculas têm, sem dúvida, origem antropogénica (e.g. pesticidas, produtos farmacêuticos, cosméticos, etc.) e estão presentes nas águas superficiais da bacia do Júcar devido à utilização de inseticidas nas culturas agrícolas e às descargas provenientes das estações de tratamento de águas residuais.

No projeto foi concebida e instalada uma estação de tratamento terciário destinada à eliminação de OMP, que consiste num tratamento por ozono do efluente da EDAR «Camp de Túria II», seguido de uma biofiltração e de uma cloragem final. A ozonização revelou-se uma ferramenta eficaz que permite, a baixo custo, reduzir a toxicidade dos efluentes, eliminando a maior parte dos OMP nos efluentes secundários das ETAR urbanas (Gomes et al., 2017). As unidades de biofiltração constituem uma barreira adicional aos microcontaminantes que possam ter escapado à ozonização. Por fim, a cloragem final assegura a ausência total de microrganismos patogénicos.

A capacidade de tratamento da estação de regeneração de água (ERA) é de 10 m3/h. Em regime contínuo, prevê-se uma produção anual de água regenerada estimada em 80 000 m3/ano. Esta água será transportada, através de um total de 6,5 km de condutas e de cinco reservatórios de armazenamento (enterrados ou semienterrados), até 40 canhões de água instalados em diferentes áreas de Riba-roja e Paterna (Figura 4). Os canhões têm um alcance de 40 m e funcionam com um caudal de 800 L/min (Figura 5). Durante o ano de 2021 foi concluída a construção civil de toda a infraestrutura hidráulica e foram realizados ensaios de afinação para garantir o correto funcionamento da instalação.

Figura 4. Infraestrutura hidráulica do GUARDIAN. A água regenerada produzida na ERA é transportada para o reservatório acumulador principal «Alpha», a partir do qual é distribuída por três zonas de interface: «Cañada Norte», «Cañada Sur» e «Els Pous». A infraestrutura nestas três zonas é composta por reservatórios acumuladores de água («Bravo», «Delta» e «Charlie») e por canhões de aspersão com 40 m de alcance (zonas sombreadas a vermelho na imagem). Está prevista a instalação de 6 canhões em «Cañada Norte» e «Els Pous» e de 14 em «Cañada Sur». No canto noroeste são instalados 14 canhões de aspersão que recebem água a partir do tanque de acumulação «Echo». Este tanque recebe água proveniente de um canal de rega já existente.

Figura 5. Ensaios hidráulicos do sistema de rega © SIDEINFO instalado na zona de interface de Masía Traver

2.3. Melhoria integrada dos ecossistemas

Com a sua abordagem integrada, o projeto GUARDIAN inclui também intervenções complementares para aumentar a qualidade ambiental e a resiliência ao fogo de determinadas zonas vulneráveis de «La Vallesa» (Figura 6). Em primeiro lugar, estão previstas roças mecanizadas para a eliminação do canavial, uma vez que se trata de uma espécie invasora muito inflamável e com grande quantidade de necromassa. Executam-se também desbastes na regeneração de pinheiro-de-alepo (Pinus halepensis) em áreas excessivamente densas (6000–12 000 pés/ha), regeneradas após o incêndio florestal ocorrido na zona em 1994. Prescreve-se uma intensidade de desbaste que reduza a densidade até um valor de cerca de 900 pés/ha. Além disso, estão programadas roças e podas seletivas em zonas específicas onde convém eliminar combustíveis em escada e favorecer descontinuidades na mancha florestal.

Do mesmo modo, o GUARDIAN inclui ações para a recuperação do lago de La Vallesa. As intervenções de requalificação deste local consistem basicamente em retirar o excesso de lamas, fornecer água regenerada para melhorar a qualidade do lago e reparar e requalificar toda a envolvente (açude, trilhos, varandins, etc.) para a adaptar como zona de lazer para visitantes.

Figura 6. Trabalhos complementares de melhoria da resiliência e da qualidade ambiental do projeto GUARDIAN. a) eliminação do canavial; b) lago de «La Vallesa»; c) desbaste na regeneração de pinheiro-de-alepo; d) poda seletiva.

2.4. Implementação conjunta e participação das partes interessadas

Como qualquer projeto de IFM, o GUARDIAN foi concebido contemplando a participação de todas as partes interessadas. Entre elas, importa referir que o projeto contou, desde o início, com a cumplicidade da Coordinadora en Defensa de los Bosques del Túria, que reúne 27 entidades diferentes, incluindo associações de moradores, escolas e organizações ambientais e culturais. Os serviços de emergência (proteção civil, polícia e bombeiros) são também atores-chave no projeto, com um envolvimento essencial em todas as suas fases (conceção, implementação e operação). O projeto contou ainda com a aprovação da EPSAR (Entidade Pública de Gestão de Águas Residuais da Comunidade Valenciana), indispensável para a execução das obras da infraestrutura hidráulica, e com o interesse de vários organismos ligados à gestão e conservação da água (e.g. as organizações europeias da água WSSTP (Water Supply and Sanitation Technology Platform) e WRE (Water Reuse Europe)).

No que diz respeito especificamente à população — talvez o utilizador final mais relevante do GUARDIAN —, o projeto inclui, na sua fase de implementação, um programa de formação, sensibilização e comunicação do risco de incêndio florestal dirigido à população de Riba-roja de Túria e Paterna (Figura 7). Destinado a diferentes grupos (e.g. alunos, moradores de zonas de interface, pessoas com deficiência, etc.), este programa abrange diversas atividades, como por exemplo oficinas participativas e palestras (e.g. dedicadas à educação sobre as alterações climáticas e à resiliência ao fogo em zonas de interface), visitas às zonas de intervenção do projeto GUARDIAN, atividades de demonstração com fogo e rega prescritos e ações de formação em jardinagem preventiva contra incêndios e autoproteção.

Figura 7. Sessão informativa do projeto GUARDIAN para residentes da interface.

3. Discussão

3.1 Principais desafios de implementação

Em projetos públicos de inovação com uma marcada abordagem holística, como o GUARDIAN, surgem constantemente desafios de implementação. Estes desafios devem-se essencialmente à complexidade inerente a uma gestão integrada e participativa, às dificuldades relacionadas com a implementação de projetos de desenvolvimento em colaboração público-privada e ao propósito de promover um avanço significativo em relação ao estado da arte e da técnica.

Por um lado, há que ter em conta que implementar e testar soluções originais e inovadoras através de uma abordagem participativa genuína, que considere as interligações entre as dimensões social, económica e ambiental, implica um elevado grau de risco para as autoridades urbanas. No entanto, as administrações em geral, e os funcionários públicos em particular, operam num ambiente onde o nível de aversão ao risco é tradicionalmente elevado. Além disso, os processos de contratação pública e a obtenção de licenças, com as suas dificuldades e prazos inerentes, bem como as tensões financeiras que projetos de grande envergadura como o GUARDIAN implicam, podem comprometer significativamente o êxito da implementação do projeto. Por estes motivos, um pré-requisito fundamental para os projetos de inovação implementados à escala municipal é contar com uma liderança positiva, proativa e empenhada durante todo o ciclo de vida do projeto, de modo a detetar perigos de forma eficiente e propor medidas corretivas para os ultrapassar. No GUARDIAN, a liderança técnica esteve a cargo da equipa de engenharia municipal de Riba-roja, que a exerceu de forma exemplar, tirando partido das sinergias de uma equipa transversal, multidisciplinar e de natureza heterogénea em diferentes planos: jurídico (entidades públicas, universidades e empresas privadas), dimensão (grandes e pequenas empresas), organizativo, etc. Foi igualmente necessária uma liderança e um compromisso político por parte das administrações locais para um bom diálogo com a população e com outras partes interessadas (administrações regionais e nacionais, gestores do risco e das emergências, meios de comunicação social, etc.).

Com efeito, o desenvolvimento de alianças e colaborações sólidas e de confiança entre organismos públicos, o setor privado e a sociedade civil é amplamente reconhecido como a pedra angular das políticas eficientes de desenvolvimento urbano sustentável (European Union, 2019). As organizações, bem como os indivíduos e utilizadores finais externos às autoridades urbanas, estão cada vez mais dispostos a contribuir para a procura e a implementação de novas soluções para os desafios sociais atuais (von Shomberg, 2013, European Commission, 2013). As autoridades urbanas devem, portanto, aproveitar a inteligência coletiva das diferentes partes interessadas para encontrar novas abordagens que produzam resultados eficientes perante desafios ambientais e sociais como os que representam, neste caso, os incêndios na interface urbano-florestal. Neste sentido, os utilizadores finais do GUARDIAN são atores-chave no processo de implementação. Como já foi referido, o projeto foi concebido com a intenção de ser implementado em conjunto com os agentes locais interessados. No entanto, a atual crise pandémica dificultou enormemente este processo. A emergência sanitária implicou, obviamente, uma limitação do contacto pessoal entre todas as partes interessadas, aspeto muito necessário para conseguir uma comunicação fluida e eficiente. Embora tenha sido possível realizar algumas atividades de comunicação e sensibilização e visitas formativas ao local, o programa de participação concebido no GUARDIAN terá necessariamente de ser concluído durante a fase de operação do projeto.

Quanto aos desafios técnicos de um projeto inovador como o GUARDIAN, foram múltiplos e surgiram em diferentes fases da implementação, uma vez que a inovação e o desenvolvimento estiveram presentes em muitas das tarefas que compuseram o plano de trabalho. Entre outros, destacam-se a otimização das condições de operação da ERA para obter um caudal de saída com a qualidade adequada à sua utilização como água de rega em zonas de interface, o cálculo da prescrição de rega nos corta-fogos verdes, tendo em conta as condições ambientais, as necessidades da vegetação e a água disponível em cada momento, e a conceção de uma rede de sensores que permita a monitorização de parâmetros externos e internos do sistema para um funcionamento totalmente autónomo. Em todos estes casos, o nível de inovação e o avanço em relação ao estado da arte foram notáveis e, por isso, a sua eficiência terá de ser demonstrada durante a fase de operação do GUARDIAN.

3.2 Viabilidade e escalabilidade do projeto GUARDIAN

O GUARDIAN foi concebido como um teste experimental de uma solução de gestão sustentável e integrada de incêndios nunca antes testada na União Europeia a uma escala urbana real. O projeto deve cumprir objetivos económicos, ecológicos e sociais de forma sustentável, tendo em conta as sinergias e os efeitos antagónicos entre os diferentes serviços dos ecossistemas, num contexto em que as alterações climáticas acrescentam ainda mais complexidade, trazendo novos desafios e ameaças, como por exemplo a conservação dos sumidouros de carbono, períodos de seca prolongados, novos cenários de incêndios de maior intensidade e severidade, etc. (Lagergren e Jönsson, 2017). Tudo isto coloca desafios importantes na quantificação da viabilidade económica do projeto e na conceção de um processo de monitorização e avaliação que assegure a sustentabilidade e a escalabilidade do GUARDIAN para outras zonas de interface. Para fazer face a estes desafios, o GUARDIAN desenvolveu um sistema de indicadores que será de grande ajuda para quantificar o impacto final do projeto e avaliar a sua implementação noutras áreas de interesse. Uma parte essencial da operação inicial do GUARDIAN será quantificar, por exemplo, a superfície de habitats naturais conservados, a produção de água regenerada, a população beneficiada pelas medidas de proteção contra incêndios florestais implementadas, os custos de investimento, operação e manutenção das estruturas e os benefícios económicos dos serviços dos ecossistemas que a implementação do GUARDIAN proporciona (conservação da biodiversidade, disponibilidade de água, serviços recreativos e redução do risco de catástrofes naturais, etc.)

Estima-se, à partida, que o potencial de escalabilidade do GUARDIAN a nível europeu é elevado, devido à grande extensão de áreas de interface vulneráveis aos incêndios florestais que se estendem por toda a bacia do Mediterrâneo. Em todo o caso, a implementação do GUARDIAN exige uma parametrização minuciosa de todo o sistema, atendendo às circunstâncias particulares de cada zona no que respeita à vegetação, ao ciclo da água, às condições meteorológicas e ao comportamento esperado do fogo. O exemplo e as metodologias desenvolvidas no GUARDIAN serão, sem dúvida, um guia muito valioso para outros municípios que queiram enfrentar este desafio e implementar uma solução de gestão integrada de incêndios florestais em benefício da população e do meio natural.

4. Conclusões

O GUARDIAN é um exemplo de projeto de IFM, assente fundamentalmente na execução de tratamentos silvícolas segundo diretrizes e critérios de gestão florestal sustentável (preventiva de incêndios, orientada para a maturidade, eco-hidrológica e adaptativa às alterações climáticas), que pretende limitar a intensidade e a propagação dos incêndios florestais, melhorando a resiliência dos povoamentos florestais e contribuindo para a criação de áreas defensáveis para os meios de combate junto dos núcleos urbanos na interface. A implementação do GUARDIAN implica, além disso, a criação de áreas de proteção de elevado valor ambiental e paisagístico em torno de zonas vulneráveis ao fogo, favorecendo diferentes serviços dos ecossistemas (e.g. revalorização da água, fixação de gases com efeito de estufa, proteção contra a erosão, manutenção da biodiversidade, etc.). O esforço de inovação que a sua conceção implicou foi evidente e representou um avanço significativo no estado da arte e da técnica em ciência florestal e em análise do risco de incêndio florestal. Concluída a sua fase de implementação, o êxito do GUARDIAN na fase operacional dependerá agora do envolvimento, da responsabilidade e da cumplicidade de todos os agentes envolvidos, a começar pelas administrações locais e pelos serviços de emergência, e contando ativamente com a população como beneficiária última do impacto que o GUARDIAN venha a ter.

Agradecimentos

Este trabalho foi financiado pelo programa Urban Innovation Actions – European Union (UIA03-338 – GUARDIAN Project).

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