Notícia · 15 de setembro de 2020
Del Campo: «O que provoca os incêndios é a maior presença desse combustível que é a madeira»
Antonio del Campo (UPV) explica como a água contida nas árvores trava o avanço do fogo e como o GUARDIAN a reforça com água regenerada.

Entrevista realizada pela iambiente a Antonio del Campo, professor da Universidade Politécnica de Valência.
Floresta, água e incêndios são os três elementos que Antonio del Campo, professor da Universidade Politécnica de Valência, investiga. A partir desta instituição, colabora no projeto Guardian, chamado a ser uma referência internacional na prevenção e extinção de incêndios. O projeto desenvolve-se em La Vallesa e na sua interface urbano-florestal, no Parque Natural do Túria, na zona de Paterna e Riba-roja. «O nosso papel tem a ver com o binómio floresta-água e com a forma como pode ser utilizado durante os incêndios florestais», afirma.
Para o compreender melhor, o investigador faz uma comparação. «Pensemos na floresta como um conjunto de bilhas de barro que recolhem água», explica. Cada bilha é uma árvore, que vai perdendo a sua água pelo consumo e pela evaporação. Agora o incêndio tem de avançar e encontra todas as bilhas cheias de água. «À medida que vai partindo essas bilhas, depara-se com muita água para evaporar antes de poder continuar a avançar», conta.
Isso é essencial para retirar energia ao fogo e extinguir o incêndio. «Quanto mais água houver dentro das árvores, mais difícil será para o incêndio propagar-se», remata. Por isso, o professor investiga qual é a dinâmica da água dentro das árvores e como se pode modificar essa dinâmica através de águas regeneradas.
Mais vale prevenir do que remediar
Numa situação de pré-emergência (quando é possível antecipar ou prever um incêndio), será preciso saber quanta água é necessário fornecer às árvores para o evitar. «Não se trata de pegar num aspersor ou numa mangueira e regar por cima, porque essa água evapora-se logo», observa. A água tem de estar dentro da árvore, já que é essa a melhor forma de combater o incêndio.
O objetivo é, portanto, que essas «bilhas» estejam sempre cheias, sobretudo em situação de alerta. «É muito mais difícil um incêndio pegar numa floresta hidratada e, ao mesmo tempo, será mais fácil combatê-lo se acontecer», insiste. É assim que, através desta metáfora, explica os elementos fundamentais do projeto Guardian.
Solo-planta-atmosfera
O seu trabalho consiste em analisar essa dinâmica espacial e temporal da água para agir em conformidade sobre a hidratação e a desidratação das árvores. Os ecofisiologistas chamam a este conceito o contínuo solo-planta-atmosfera. «É preciso saber quanta água tem o solo e como se move, através da condutividade hidráulica, até chegar à planta», explica.
Depois, a árvore, enquanto reservatório, vai recolhendo e libertando a água que a atmosfera lhe pede. «Temos de estudar o estado da água nesses três sistemas e também a capacidade de retenção da árvore». Uma informação que recolhem através de sensores e instrumentos científicos.
Comportamentos inesperados
Há uma conclusão inovadora. Nos dias de vento de levante há muita humidade atmosférica, o que condiciona toda essa dinâmica. Assim, quando as árvores estão secas mas a atmosfera está relativamente húmida, fecham os estomas para reter água. Além disso, durante a noite detetaram outro comportamento que não esperavam.
«Abrem ligeiramente os estomas para a transpiração noturna, mas a humidade é maior e, por isso, a procura de água por parte da atmosfera é menor, de modo que sentem alívio e conseguem manter os seus mecanismos para continuarem a hidratar-se», explica Del Campo.
O processo de hidratação
No fundo, o que a equipa de investigadores da UPV procura fazer é caracterizar todas essas dinâmicas. Seja inverno ou verão, terão de saber de que quantidade de água as florestas precisam, como incorporá-la e como se irá perdendo.
A principal entrada de água na árvore é a raiz. A água regenerada é utilizada nesta rega através de canhões de água que alcançam um raio considerável. «Uma árvore também consegue absorver água pelos estomas, na parte superior, embora essa não seja a principal via de entrada», observa o professor.
Mas será a rega aérea eficiente? Ainda não conseguiram obter uma evidência científica a esse respeito. «Além disso, seria muito útil que as partes finas da árvore, que são as folhas e as primeiras a enfrentar o fogo, porque se inflamam mais depressa, pudessem estar mais hidratadas para o combater», explica. É algo que continuam a investigar.
Os regimes naturais do fogo
Há uma tendência a nível internacional para pôr em causa as formas de enfrentar os incêndios. Os regimes naturais do fogo foram mudando ao longo da história. Na época do ser humano caçador-recoletor, por exemplo, a frequência dos incêndios era muito baixa, porque dependiam da queda de um raio ou de algo semelhante.
Por outro lado, até à revolução industrial ou ao aparecimento do butano, o ser humano foi consumindo madeira como combustível. Algo que contribuiu para limpar permanentemente as florestas, a par da pastorícia intensiva, que hoje quase desapareceu. «As florestas não tinham o aspeto que têm hoje porque estavam limpas, e isso fazia com que não houvesse tantos incêndios», afirma Del Campo.
Combustível na floresta
Com os combustíveis fósseis, o combustível tradicional deixa de ser utilizado e acumula-se nas florestas. «O que provoca os incêndios é a maior presença desse combustível que é a madeira», remata. Segundo o professor, parece que as instituições e as administrações se deram agora conta disso. «Além de dispor de meios, é imprescindível olhar para o combustível como a origem do problema, a par do processo de alterações climáticas».
Uma solução replicável
O GUARDIAN demonstra que a água regenerada pode proteger a interface urbano-florestal. Diz-nos se o queres aplicar no teu município.